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segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Recado

Não são feitos mais de papel e caneta, muitos deles. Muitos são digitais, muitos são pessoais. Tecnologia que tira o charme de um papel dobrado, do tom azul da caneta bic e de quem sabe uma lágrima que molha o papel. Tecnologia que traz a mão trêmula segurando um celular ultramoderno.

Instante. Em menos de uma hora uma expectativa de vida, de mudança, se esvai, o coração gela e o peito dói. 

O livro da vida dá informações desnecessárias, em recados necessários. 

E a vida passa – ou continua – sem delongas. Seu recado foi dado, a decisão, que pareceu tão repentina (talvez não tenha sido), foi tomada sem prévio aviso, sem comunicação, no meio de palavras cruzadas e mentirosas. Nenhuma palavra de consideração. E tantas outras consequências neste tempo passivo foram notadas. Mudança, medo, mais mudança, uma nova esperança. Presentes, apoios, lágrimas e sorrisos, tantas misturas. 

Portas que se abriram para um coração doído que se fecha, quando entregou seu derradeiro recado, escrito em letra de mão, caneta rosa (porque ainda sonha), num papel dobrado molhado por lágrimas.

E o recado foi dado. 

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

O bolo queimado

Eu já tinha ouvido esta analogia há um tempo, mas entendi o conceito, de verdade, só agora. Porque só agora eu tenho que decidir o que fazer com o tal bolo queimado. Antes comer ou não era opção, e se não tivesse bom sempre tinha a doceria da esquina. Mas agora a P* ficou séria.

Então eu me preparei, fui às compras, escolhi os melhores dos ingredientes, paguei caro neles. Vesti meu avental e caprichosamente bati as claras em neve, utilizando minhas melhores ferramentas culinárias. Durante um longo tempo me preparei, medi, bati, mexi, untei e coloquei minha obra-prima de bolo no forno. Um imprevisto tirou meu olhar do timer e o bolo passou do ponto.

Queimou. E agora, o que fazer?

A opção mais fácil, mais cômoda, é comer assim mesmo. É frustrante, porque teve tanto esforço e carinho envolvido e agora tem este gosto de queimado. Mesmo tirando as bordas, o cheiro não é mais o mesmo. E foram tantas expectativas naquele bolo que ter que assumir que ele não ficou como planejava é um banho de água fria. Mas é o que tem, porque começar outro do zero daria muito trabalho e joga-lo fora é admitir que todo este tempo de preparo foi em vão, desperdiçado. Então, quem sabe posso lançar mão de uma cobertura, ou recheie? Talvez ninguém saiba... mas eu sei que não era assim que tinha que ser.

Mas o fato é que é preciso aceitar as falhas. O bolo queimou, ele não atende mais ao seu propósito. Um bolo queimado não satisfaz, não acalenta o ego da doceira. Não é copiado, ninguém pede sua receita. Não é gostoso. Deu trabalho, gastou-se ingredientes, mas por mais trabalhoso que seja, o melhor a ser feito é voltar ao supermercado, comprar tudo novamente, com a mesma qualidade e atenção. Novamente vestir o avental e com o mesmo sorriso, de novo bater, mexer, untar... e colocar outra vez outro bolo ao forno, prestando atenção no timer. Se outros imprevistos podem acontecer? Claro, mas é a vida. O fato é que outro bolo não tira a marca daquele bolo queimado, não tira a lembrança, te deixa com o pé atrás, de repente neste ficarei de 5 em 5 minutos acendendo a luz do forno, vai saber?

Mas a coragem de jogar o bolo fora, ah como é difícil! Como é difícil admitir a falha, jogar tudo no lixo sem saber ao menos se vai dar tempo de fazer um bolo novo...


Eu não queria queimar o bolo, eu não quero comê-lo assim mesmo e joga-lo fora? Dói na alma.