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segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Uma relação em parágrafo único

Como muitas mulheres, eu tive o sonho de casar bonito, de branco, na igreja. E na pressa da imaturidade, deixei isso acontecer sem o amor mútuo e maduro. Acreditei num conto de fadas, acreditei que a paixão sustentaria a rotina. Aliás eu nem sabia o que era rotina. Meses depois, a relação já dava o ar de comprometida com argumentos egoístas e despreparados. Mas existe um sentimento que só quem casa conhece: o de achar que amanhã vai ser diferente. E neste sentimento vivi o relacionamento mais complicado que já ouvi falar. Na fase da lua-de-mel, recém-casados, aquela que nem foi a primeira briga denunciou o que estaria por vir: o primeiro reveillon separados, e brigados. O primeiro pensamento era de separação, mas um mais forte era o da vergonha de se separar – pra mim, não pra ele, mais prático e cético. Reatamos, entre lágrimas e promessas, porque tudo naquele tempo era sobre a viagem, que mudaria nossa vida e nos colocaria juntos para sempre. Não foi, não mudou e nos afastou. E quando, por insistência, voltamos, deixou mágoas e feridas que nunca cicatrizaram (pausa para dizer que eu, que nunca lidei bem com cicatrizes, tive que aprender a conviver com uma ferida aberta, dolorida e num lugar inconveniente: bem na auto estima). Desta vez, fomos mais longe, construímos uma base, nos aproximamos, até tentamos dar ênfase na palavra família aumentando-a com gato e cachorro. Mas vivíamos pisando em ovos, e de novo, outra separação. Foi em doses pequenas, mas que se consolidou. Só que havia um quê de não sei o que, não sei se amor, apego ou orgulho, que um não deixava o outro ir. Foram “flashbacks” aqui e ali, por quase um ano, que trouxeram uma grande perda – viu que estava se metendo numa roubada e decidiu não ficar por aqui – e uma grande alegria: a (denovoooo) reconciliação. Que aconteceu porque eu, um dia, vi que não sabia lidar com este lance de ficar, de dividir e muito menos de não se comprometer. O nome desta relação sempre foi meio estranho... “namoro meu ex-marido”. “Namorido”. Cada um na sua casa, e eu defendia a ideia de que estávamos amadurecendo a relação. Não, não estávamos. Porque é muito fácil namorar com quem você tem que trabalhar a convivência. Apertou, vai pra sua casa que não quero te ver. E isso foi ficando cada vez mais comum, dormir separados, viver separados num casamento só de papel. A aposta feita, em 5 meses saiu o resultado: exatamente no dia que completaríamos 3 anos da relação mais complicada, tudo acabou. De novo, ele desistiu, como sempre fez quando ficava muito difícil. E desta vez, eu não lutei, não discuti, não procurei respostas, não joguei nada na cara. Simplesmente absorvi, cansada, saturada. E o absolvi. Acho que finalmente ficou claro que algumas relações somam, outras empatam. E me despi do meu orgulho de manter uma relação de eternos zero a zero. Aliás, diferente das outras separações, onde muitos sabem o quanto sofri e chorei (gente é inacreditável o quanto eu chorei), hoje eu estou com um sentimento indescritível de conclusão. Fui a típica escorpiana teimosa, ele o típico ariano alheio. Eu fiz muito mais do que podia, me doei, me entreguei a um amor que nem consigo ainda saber se existiu – deixo esta resposta pro tempo me dar daqui uns 30 anos. Ele nadou com a maré, ditando sua inércia e eu me aconcheguei nisso, mesmo internamente desconfortável. Não era pra ser, não mesmo, contrariando o que eu tinha escrito dois dias antes do fim. E assim, por ora, o sonho de casar bonito tomou outra forma.

domingo, 10 de maio de 2015

Je perds

Esta semana perdi mais alguém, uma peça importante que saiu rasgada de mim, mas que eu deixei que fosse... Uma a uma as pessoas escolhem sair porque eu, talvez mudada, não as forço mais pra ficarem. Não faço mais questão de argumentar, de insistir, de me indispor ou ir contra meus sentimentos.
Ficar sozinha tem sido doloroso mas a melhor escola que frequentei. Perder é difícil, mas a pessoinha que eu mais quis na minha vida... Veio até aqui e deu meia volta... Me achou bagunçada pelo visto! E mal esteve aqui já me ensinou: se respeita, mãe! Se dá espaço! Não faz o que os outros querem ou esperam. Chora mais e engole menos, porque um dia, quando eu voltar, vou precisar do seu coração livre de mágoas.
Então perder já não dói como doía. Simplesmente suspiro e sigo, encaro como mais uma lição.
Todas essas pessoas voltarão, eu sei, se elas quiserem eu estarei de braços e coração abertos. Só preciso - e precisam - de tempo pra me entender, entender onde eu vim parar e como sair daqui.
Não deixei de amar nenhuma. Só me fechei. Me escondi. Porque quando perdi a menor delas, entendi a maior delas....

segunda-feira, 9 de março de 2015

A última peça

Depois de tanto tempo, tanto esforço pra entender, tantos textos escritos inspirados pelo desamor, vem uma informação da forma mais simplista e cai no colo. Assim mesmo, sem pedir, sem buscar, sem investigar, o sonho da vida de qualquer mulher se faz real em informações substanciosas dada por pessoas em comum, que sequer desconfiavam da gravidade do que falavam – para meu coração. O problema ali realmente não era eu.

Hoje tanta coisa faz sentido. Ao ouvir aquelas histórias, t.o.d.o.s os momentos que nos envolveram passaram na minha frente. Algumas conversas, palavras, comentários, encontros, casos, fotos. Coloquei a última pecinha neste quebra-cabeça que, repito, montei sozinha, desenhei sozinha e carreguei comigo desde o primeiro jogo sozinha. O problema ali é que eu realmente era eu.

E durante todo este tempo eu achava que o problema é que eu não tinha sido eu, tinha montado um personagem. Não, eu fui despretensiosa até demais. Talvez se tivesse sido menos intensa, teria engatado, mas não passaria da 3ª marcha. Porque o problema ali não era meu.

E se eu alguém tivesse me contado isso antes, no ápice do meu encantamento? Eu teria mudado. Eu ia tentar me encaixar. Eu ia continuar teimando até sangrar. Eu jamais aceitaria, na minha autoestima fantasiada de imponente, que o problema, ali, não era eu. Eu caçava defeitos, caçava motivos, caçava deslizes. Foi preciso este tempo para entender, precisava viver outras dores, outros desamores. Precisava aprender a olhar pra trás e sorrir, e ter maturidade pra aceitar que o problema ali, realmente, é que não era pra ser meu.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Voltar no tempo

Quem nunca sentiu essa vontade? Geralmente é por arrependimento. Por achar que tomou a via errada, fez a escolha errada. Por achar que tudo poderia ser tão diferente.

Sempre pode. Dizem que (Chico Xavier disse que) embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim. Mas não é disso que eu estou falando. Nem o que estou sentindo.

Eu queria reviver. Passar por tudo de novo, e sabendo o fim que teria, teria aproveitado mais, sido mais intensa, marcado aquele momento de mais alguma forma. Teria feito as coisas com menos pressa, sido menos racional – e há quem diga que sequer houve racionalidade naquilo tudo – e feito até com mais carinho – e há também quem diga que tudo foi tão cuidadosamente feito com tanto carinho que emocionou.

Queria sentir toda aquela ansiedade de novo. Cada passo, cada item concluído. Queria ter chorado naquele momento, não hoje, não todas as noites. Queria ter dançado, pra marcar na minha memória o corpo colado, junto, a emoção e as palavras no pé do ouvido. Queria ter dado um presente, feito uma carta, outra carta. E, mais que isso, queria ouvir aquelas palavras de novo. Queria que, em sonho, meu espírito me levasse ao passado para poder, em 8 horas, reviver aquele sentimento.


Como se reviver aqueles 81 dias fosse capaz de amenizar estes 81 dias atuais.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Recado

Não são feitos mais de papel e caneta, muitos deles. Muitos são digitais, muitos são pessoais. Tecnologia que tira o charme de um papel dobrado, do tom azul da caneta bic e de quem sabe uma lágrima que molha o papel. Tecnologia que traz a mão trêmula segurando um celular ultramoderno.

Instante. Em menos de uma hora uma expectativa de vida, de mudança, se esvai, o coração gela e o peito dói. 

O livro da vida dá informações desnecessárias, em recados necessários. 

E a vida passa – ou continua – sem delongas. Seu recado foi dado, a decisão, que pareceu tão repentina (talvez não tenha sido), foi tomada sem prévio aviso, sem comunicação, no meio de palavras cruzadas e mentirosas. Nenhuma palavra de consideração. E tantas outras consequências neste tempo passivo foram notadas. Mudança, medo, mais mudança, uma nova esperança. Presentes, apoios, lágrimas e sorrisos, tantas misturas. 

Portas que se abriram para um coração doído que se fecha, quando entregou seu derradeiro recado, escrito em letra de mão, caneta rosa (porque ainda sonha), num papel dobrado molhado por lágrimas.

E o recado foi dado. 

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Medo

Nem sei de quê.

Talvez de ficar sozinha, de não dar certo, de não vingar. Bateu um medo. Medo mesmo, aquele que faz tremer as pernas. Medo de ter sido tudo em vão, medo de me arrepender.

Porque nada vingou, nada deu certo. E não é que deu certo enquanto existiu, deu errado mesmo! Cortei laços, tomei decisões erradas, insisti no erro e me machuquei. Achei que era cedo pra desistir e me machuquei mais. Agora o que me machuca é o tempo perdido.

E o pior é que a vida não para pra me esperar. Não adianta pedir tempo, pedir pra começar de novo, nem desistir e dar de ombros. A vida não para e tanta gente depende de mim. Sempre segurei, segurei firme, me fiz de arrimo, principalmente mental. Um dia, quis um pra mim, e quando achei que pudesse relaxar neste peito, caí. Caí e a vida me atropelou. Me atropelou de todas as formas, com todas as pernas. Me perdi em todos os vieses.

De todos os arrependimentos o pior é de ter relaxado. Porque os caminhos são escolhas e a gente retoma. Como li estes dias num livro que tem tentado acalmar meu coração, “Nosso caminho é sempre o melhor que podíamos escolher, de acordo com nosso nível de compreensão e adiantamento daquele momento. Se, porém, no dia seguinte, nos dermos conta de que aquele caminho não era o mais adequado, não devemos nos culpar por isso. Devemos apenas mudar de direção, selecionar novas veredas.”

Mas é o arrependimento de ter relaxado que me dá medo. Porque eu tenho, de novo, medo de não confiar em mim. Não nos outros, mas em mim mesmo. Eu já nem sei mais o que eu faço bem. E se eu faço bem mesmo. É uma mistura de experiências que não dá uma profissional completa. Uma mistura de experiências que não dá nem mulher nem adolescente. Uma mistura de experiências que me faz sentir incompleta, perdida, com medo. Medo que não acaba, que não alivia o peito por nem um instante.

Medo de ficar sozinha, de não dar certo, de não vingar...

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

O bolo queimado

Eu já tinha ouvido esta analogia há um tempo, mas entendi o conceito, de verdade, só agora. Porque só agora eu tenho que decidir o que fazer com o tal bolo queimado. Antes comer ou não era opção, e se não tivesse bom sempre tinha a doceria da esquina. Mas agora a P* ficou séria.

Então eu me preparei, fui às compras, escolhi os melhores dos ingredientes, paguei caro neles. Vesti meu avental e caprichosamente bati as claras em neve, utilizando minhas melhores ferramentas culinárias. Durante um longo tempo me preparei, medi, bati, mexi, untei e coloquei minha obra-prima de bolo no forno. Um imprevisto tirou meu olhar do timer e o bolo passou do ponto.

Queimou. E agora, o que fazer?

A opção mais fácil, mais cômoda, é comer assim mesmo. É frustrante, porque teve tanto esforço e carinho envolvido e agora tem este gosto de queimado. Mesmo tirando as bordas, o cheiro não é mais o mesmo. E foram tantas expectativas naquele bolo que ter que assumir que ele não ficou como planejava é um banho de água fria. Mas é o que tem, porque começar outro do zero daria muito trabalho e joga-lo fora é admitir que todo este tempo de preparo foi em vão, desperdiçado. Então, quem sabe posso lançar mão de uma cobertura, ou recheie? Talvez ninguém saiba... mas eu sei que não era assim que tinha que ser.

Mas o fato é que é preciso aceitar as falhas. O bolo queimou, ele não atende mais ao seu propósito. Um bolo queimado não satisfaz, não acalenta o ego da doceira. Não é copiado, ninguém pede sua receita. Não é gostoso. Deu trabalho, gastou-se ingredientes, mas por mais trabalhoso que seja, o melhor a ser feito é voltar ao supermercado, comprar tudo novamente, com a mesma qualidade e atenção. Novamente vestir o avental e com o mesmo sorriso, de novo bater, mexer, untar... e colocar outra vez outro bolo ao forno, prestando atenção no timer. Se outros imprevistos podem acontecer? Claro, mas é a vida. O fato é que outro bolo não tira a marca daquele bolo queimado, não tira a lembrança, te deixa com o pé atrás, de repente neste ficarei de 5 em 5 minutos acendendo a luz do forno, vai saber?

Mas a coragem de jogar o bolo fora, ah como é difícil! Como é difícil admitir a falha, jogar tudo no lixo sem saber ao menos se vai dar tempo de fazer um bolo novo...


Eu não queria queimar o bolo, eu não quero comê-lo assim mesmo e joga-lo fora? Dói na alma.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Passa amanhã

Tô deixando a tristeza para amanhã.

Não que eu de fato consiga evita-la, mas é porque a história conseguiu me ensinar algo, e eu sei que estas lágrimas que teimam em aparecer não serão as únicas. Então eu penso: de que adianta chorar agora e chorar amanhã de novo, e de novo, e de novo? Que o pranto venha então de uma vez e saia com força do meu peito, levando com ele toda minha esperança. Porque quando eu chorar, é porque chegou a hora.

E tenho conseguido adiar, dia a após dia, esta queda. Tenho algumas perdas em mente, não sou ingênua. Ninguém passa ileso, ninguém sai sem cicatrizes, e eu estou respeitando meu luto interno. Estou respeitando minhas vontades, rindo de mim mesma sempre que possível. Se está fácil? Esta pergunta é para mim ou para quem me olha? Porque quem me olha tem certeza que eu estou até feliz com isso tudo. Mas eu mesma... 

Medo, desconfiança, remorso, raiva, e muita tristeza. Um turbilhão de pensamentos, sensações, receios, devaneios que vem sem avisar. Aquele monte de "será que é isso mesmo?", "mas e se?" e "tenho a sensação que ainda não acabou" passam pela minha cabeça o tempo todo. E eu nunca tenho respostas, senão minha famigerada "passa amanhã".

domingo, 20 de julho de 2014

Momentos, esperas e devaneios

Um pedido de casamento. Um momento único e planejado, romântico, desejado, compartilhado. Uma dança, a primeira ou a última, mas uma dança. Corpos colados, nenhuma palavra, passos sincronizados. 

Um beijo, longo, de bom dia ou de boa noite, espontâneo e tão inesquecível quando o primeiro. Eu te amo. Num sussuro, num abraço, num cartão. Eu te quero, te desejo. Não vivo sem você. Palavras que vão além de meras palavras.

Mais vinhos, mais jantares à luz de velas. Um único jantar a luz de velas. Dois à cozinha, dois ao banho, dois na cama. Um único desejo, pensamento, corpo.

Um lugar no mundo, um lugar no peito, um lugar. Uma música, uma letra, um poeta, escritor, piadista.

Segredos. Confissões, fantasias, medos, lágrimas. 

Todos estes momentos. Momentos que foram não vividos. 
Se vividos, não marcados. Se marcados, perdidos. Se perdidos, à espera... À espera de segundas chances, segundas-feiras, segundas intenções, opiniões. À espera de serem vividos intensamente e nunca esquecidos.

Porque a vida é feita disso mesmo. De esperas. E é quando menos se espera que estes momentos acontecem.


sábado, 31 de agosto de 2013

Oração

Que você encontre aquela que desenhou nos pensamentos do seu silêncio. Que ela viva de acordo com suas indagações, que não tenha dúvidas, receios. Que ela conviva pacífica e passiva com a solidão do silêncio, que saiba atravessar a muralha do seu corpo grande e consiga decifrar seus pensamentos e emoções.

Que ela seja sua perfeita professora, amiga, companheira, psicóloga e mãe, mas que nunca queira ser sua mulher. Que quando você erre, ela conserte, sem que você sequer saiba seu erro. Que ela nunca aponte seus defeitos, apenas conviva feliz com eles. Que esta mulher tenha as mãos macias para passa-las na sua cabeça concordando com todas suas decisões, todo o tempo, sem nenhuma opinião. Que ela não pense demais, nem aja de menos. Que ela tenha seu jeito, exatamente sua maneira de ver as coisas. Que cozinhe só o que gosta de comer, que viva de acordo com seus horários. Que não tenha medo do escuro, ou de ficar sozinha. Que nunca exija prioridade na sua vida, no seu tempo ou no seu corpo, e que aceite sua falta de vaidade, concordando até que polo azul combina com blusa de lã  preta. Que nunca queira passar suas camisas, nem peça que você use uma ou outra roupa. Que seja conveniente em sua inferioridade, que aceite que não será notada ou que sua falta não será sentida. Seus amigos e família são prioridade, que entenda que ela não faz parte da sua família. Que ela saiba que a academia é mais sagrada que a cama do quarto, porque é lá o único lugar onde você extravasará seus medos e anseios. Que entenda que sexo varia de acordo com os problemas da vida. Da sua, nunca da dela.

Que ela nunca queira dividir com você nenhuma vida, nenhuma história, conta bancária ou problemas financeiros. Que ela saiba das limitações dela e não queira aprender errando. Que não tenha sonhos, vontades, seja realista e nunca ultrapasse seus - ou teus - limites. Que ela nunca dependa de você.

Que ela aceite seu passado, e que nunca se questione porque sabe tão pouco de você.

Que consiga dormir sem ouvir uma história.

Que ela tenha a auto estima de um búfalo, a força de uma máquina para te carregar pela vida e que não tenha necessidade de se sentir necessária. Aliás, que não tenha nenhuma necessidade. Que espere seus tempos, que podem durar meses, que saiba que dormir sem dizer boa noite e acordar sem dizer bom dia faz parte da realidade dessa relação que busca.

Que se você desistir e, um dia mudar de ideia, ela esteja vestida do mesmo jeito, parada no mesmo ponto, te esperando sorridente.

Que ela não precise de mimos, de presentes, de manifestações de afeto e provas de amor. Que querer ser amada não esteja em seus genes.

Que ela saiba que a vida dela não será uma propaganda de margarina. Light.

Que esta mulher perfeita nunca te contrarie, e se o fizer, sinta-se feliz sendo culpada. Que ela não tenha orgulho nenhum e que entenda que seu horizonte é o chão, com seus pés caminhando à frente dela, que estará te empurrando com aquela força maquinária.

Que te dê filhas. Exatamente como ela é.

Que você encontre esta mulher perfeita. E que ela seja de fato uma mulher.

Que ela exista.

Amém.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Na hora certa


Escrever é terapia. Me tira do corpo as palavras que gostaria de poder gritar, jogar na cara de alguns. Ou jogar ao vento em fases de felicidade plena.

Os gaps nesta terapia mostra que a engrenagem da minha vida está fluindo como um relógio suíço.

E foi quase ontem que eu percebi, coincidentemente, que o ponteiro menor do meu relógio suíço está desajustado. A hora está certa, mas seu ponteiro se desalinha, então tenho que me basear pelos minutos – e pela posição do sol, como nos velhos tempos.

E se basear numa prática dos velhos tempos não tem me feito bem, então tirei o relógio do pulso. Um relógio dourado, vistoso, bonito, polido. Uma engrenagem perfeita, mas com uma incoerência na hora certa. Fazia do meu pulso cansado, adornado mas vazio, com medo de confiar na hora presumida pelo relógio.

Não sei mais a hora. Não sei se estou atrasada ou adiantada.

Eu não quero saber se meus minutos conferem, porque o dia, no fim da contas, é baseado em horas, e em horas certas.

Quando é a hora certa?

De se entregar, de acreditar, de esquecer, de levantar. Eu não sabia tudo que se passava em mim até que um simples dispositivo foi acionado: o cronômetro. Eu tive 60 segundos para acertar uma resposta, mas não tinha noção do tamanho da cicatriz que eu tinha no peito, bem ali, onde fica a confiança. Não sabia a superficialidade daquilo que eu jurava ser o melhor momento da minha vida. Não me lembrava como era acreditar. Ainda não me lembro como é acreditar. Só lembro do medo de me perder entre os ponteiros.

E olha só... não é que estou insegura em saber se estou uma hora atrasada ou adiantada. Meu medo é perder minha noção da pontualidade. É de começar a viver pelos ponteiros dos minutos, vivendo apenas aquele ciclo perfeito do presente, e fechando meus olhos, ficar cega ao menor ponteiro, de maneira que mesmo que eu troque de relógio, o hábito me cegue e eu não viva mais as horas certas da vida. Viver em função do relógio sem ao menos olhá-lo por completo.

Hoje ando de pulso nu. De alma nua, de coração aberto. Estou aprendendo a confiar na informação alheia.

Que horas são?

quinta-feira, 7 de julho de 2011

O amor não tira férias

Quantas e quantas vezes não ouvimos as histórias de amores de verão. Quantos filmes, novelas, livros, quantos contos que desejamos nossos, quantos devaneios sobre paixões avassaladoras que nos acometem em questão de segundos, quando menos esperamos.

Tudo que precisavámos fazer era nos abrir à elas.

Tudo que precisávamos era esquecer.

As férias da minha vida. Assim que chamo o último mês vivido, título plagiado descaradamente porém vivenciado profundamente. Foram 30 dias de descanso, viagens, risadas e devaneios. Mãos no bolso, pés na estrada, na calçada, no metrô, no trem, no ônibus, em cima e sem salto. Mente lutando em ficar vazia, coração insistindo no desapego, e eu apenas vivendo toda esta luta de sentimentos, com os olhares cobertos por lentes escuras protegidos do escasso sol que a terra de céu cinzento permite raiar. O cinza combinava com a alma, combinava com as letras miúdas que insistia em acompanhar, como um livro virtual de cabeceira.

Três semanas depois, o sol surgiu, o verão chegou tarde no velho continente. Com o sol, ele veio, alto, de gargalo, difícil de entender, mas o olhar disse tudo, mesmo no idioma estrangeiro. Entre beijos e festas, uma conversa profunda sobre a vida selou o primeiro encontro, aquele que seria o último. Minhas asas, que mesmo vermelhas se confundiram com as de um anjo, não foram fortes o suficiente para me tirar do chão, e eu acabei voando para outra direção. Mas o sol me trouxe a lembrança e o cupido, aquele armado não com flechas, resolveu de novo agir: o sol se pôs e eu continuei a olhar o horizonte, com uma imagem ruiva na cabeça.

O último dia de viagem chegou, já saudoso, tenso, com tanto a fazer. Mas a escolha foi feita. Tudo para o ar, quis a companhia, o toque das mãos grandes, os elogios, as fotos, o abraço incrivelmente confortável. Justamente no último dia. Na última noite. Eu fui, com um beijo enquanto ele dormia, e parti.

E hoje são dois os oceanos que nos separam. Amanhã serão cinco. Um dia talvez, nenhum, ninguém sabe.

O que eu sei é eu me abri. E que o amor da vida real também não tira férias.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Ocitocina, sua linda!

Pra matar a saudade de me sentir assim, vívida, feliz. Com aquele aperto no peito inexplicável, suspiros insensatos, um rosto que persiste no pensamento, não importa onde ele esteja. Um rosto no inconsciente, o sonhar, o divagar... de quantos filhos, onde morar, que cor pintar o quarto, que carro teremos para carregar toda a família para a casa no interior no fim-de-semana, colher frutos no pé-de-amora. A cor favorita, a letra de mão, a cor dos olhos, dos cabelos, as pintas pelo corpo, medir mãos, tocar a ponta do nariz, afagar os cabelos, auto-retratos...

Ah o corpo humano e sua sabedoria infinita de até mesmo saber nos fazer apaixonar, como, onde e por quem.

Porque é ela que faz tudo isso acontecer. É a ocitocina que decide, por cálculos e recálculos inconscientes, que é com este ou aquele macho-alfa que a mulher quer procriar. Por isso, o corpo libera uma dose de paixão no cérebro. Dose essa que é revigorada, por manutenção, a cada vez que cada um desses momentos volta à lembrança. Portanto, para o corpo humano, lembrar é amar.

Amor este quase que exclusivo das mulheres. Porque a ocitocina foi feita para criar o laço materno, no amamentar, no parir, no conceber. Sim, é a dose cavalar de ocitocina liberada no orgasmo que faz o útero se empenhar para o conceber. Por isso, entre erros e acertos, podemos dizer até que não existe sexo casual para a mulher: a cada orgasmo, uma dose de paixão/ocitocina é liberada. Se olhar nos olhos de uma mulher durante um orgasmo, irá ver o amor florescer em seu corpo, a cada vibração, a cada arrepio e toque. E é pela ocitocina também que mulheres amam chocolate sobre todas as coisas. Chocolates e feromônios, todos no mesmo patamar.

É.. o corpo e suas peripécias para o amor.

Nada como uma nova dose de ocitocina para girar a roda da vida.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

E pra não dizer que eu não falei de flores...

Esse dias acordei com uma lembrança na cabeça.

Lembrei de flores. De lírios mais precisamente. Há algum tempo recebi uma agradável surpresa. Uma caixa branca, bem embalada, com um conteúdo extasiante. Dois lírios, cor-de-rosa, abertos, vívidos. Perfumados. Um perfume que inebriava, que alcançou todos os cantos do então escritório. Não havia remetente, e não saber quem havia me enviado tal presente encheu meu coração de esperança.

Depositei no “Lírio” – como eu o chamava - todo meu amor, tudo aquilo que eu tinha pra dividir, compartilhar. Cuidava das flores com zelo, conversava com elas. De tempos em tempos, parava meu trabalho no computador e apenas as observava, suspirava por vezes. E então, me aproximava e sentia o perfume que exalava, tão forte, tão doce. Por dias seguidos, tinha a ponta do nariz manchada pelo pólen, e isso me fazia feliz.

Por dias então, pude dar meu amor recebendo nada além do doce perfume da flor em troca, e isso me bastava. Porque era puro, era verdadeiro, era natural. Porque o Lírio entendia o que eu queria, dava o que eu precisava. O Lírio preenchia um vazio no meu peito, me dava esperança que tudo ficaria bem.

O Lírio partiu, mas não sem antes me dizer que todo aquele amor que eu tinha guardado em mim não era em vão. E lírios sempre têm razão.

Lembrar do Lírio me faz amar. Me faz entender meu amor guardado, me faz acalma-lo, aquiesce-lo. E sorrir.

E eu que achava que gostava mesmo era de rosas.