quarta-feira, 24 de agosto de 2011

O meu alguém especial

Para mais umas das minhas entressafras de inspiração, devaneio alheio. Este texto, recebido hoje, me tocou muito. Porque é nisso que eu acredito, que há sim alguém especial, e ele nada tem de especial. Ao não ser ao meus olhos.

É a resposta das horas perdidas tentando definir e defender uma beleza que só você vê, um jeito que só você gosta, um toque que, para você, só a SUA pessoa especial tem.

Para quem tem alguém especial (saiba o mundo ou não), Ivan Martins, editor-executivo da ÉPOCA.

Alguém especial
É isso que você quer – ou um monte de gente basta?
 
“Ficar com muita gente é fácil”, diz um amigo meu, com pouco mais de 25 anos. “Difícil é achar alguém especial”. Faz algum tempo que tivemos essa conversa. Ele tentava me explicar por que, em meio a tantas garotas bonitas, a tantas baladas e viagens, ele não se decidia a namorar.

Ele não disse que estava sobrando mulher. Não disse que seria um desperdício escolher apenas uma. Não falou em aproveitar a juventude ou o momento e nem alegou que teria dificuldade em escolher. Disse apenas que é difícil achar alguém especial.

Na hora, parado com ele na porta do elevador, aquilo me pareceu apenas uma desculpa para quem, afinal, está curtindo a abundância. Foi depois que eu vim a pensar que existe mesmo gente especial, e que é difícil topar com uma delas.

Claro, o mundo está cheio de gente bonita. Também há pessoas disponíveis para quase tudo, de sexo a asa delta. Para encontrar gente animada, basta ir ao bar, descobrir a balada, chegar na festa quando estiver bombando. Se você não for muito feio ou muito chato, vai se dar bem. Se você for jovem e bonita, vai ter possibilidade de escolher. Pode-se viver assim por muito tempo, experimentando, trocando de gente sem muita dor e quase sem culpa, descobrindo prazeres e sensações que, no passado, estariam proibidos, especialmente às mulheres.

Mas talvez isso tudo não seja suficiente.

Talvez seja preciso, para sentir-se realmente vivo, um tipo de sensação que não se obtém apenas trocando de parceiro ou de parceira toda semana. Talvez seja preciso, depois de algum tempo na farra, ficar apaixonado. Na verdade, ficar apaixonado pode ser aquilo que nós procuramos o tempo inteiro – mas isso, diria o meu jovem amigo, exige alguém especial.

Desde que ele usou essa fatídica expressão, eu fiquei pensando, mesmo contra a minha vontade, sobre o que seria alguém especial, e ainda não encontrei uma resposta satisfatória. Provavelmente porque ela não existe.

Você certamente já passou pela sensação engraçada de ouvir um amigo explicando, incansavelmente, por que aquela garota por quem ele está apaixonado é a mulher mais linda e mais encantadora do mundo – sem que você perceba, nela, nada de especial. OK, a garota é bonitinha. OK, o sotaque dela é charmoso. Mas, quem ouvisse ele falando, acharia que está namorando a irmã gêmea da Mila Kunis. Para ele ela é única e quase sobrenatural, e isso basta.

Disso se deduz, eu acho, que a pessoa especial é aquela que nos faz sentir especial.

Tenho uma amiga que anda apaixonada por um sujeito que eu, com a melhor boa vontade, só consigo achar um coxinha. Mas o tal rapaz, que parece que nasceu no cartório, faz com que ela se sinta a mulher mais sensual e mais arrebatada do planeta. É uma química aparentemente inexplicável entre um furacão e um copo de água mineral sem gás, mas que parece funcionar maravilhosamente. Ela, linda e selvagem como um puma da montanha, escolheu o cara que toma banho engravatado, entre tantos outros que se ofereciam, por que ele a faz sentir-se de um modo que ninguém mais faz. E isso basta.
(aqui rolou identificação. Muita!)
 
É preciso admitir que há gente que parece especial para todo mundo. Não estou falando de atores e atrizes ou qualquer dessas celebridades que colonizam as nossas fantasias sexuais como cupins. Falo de gente normal extremamente sedutora. Isso existe, entre homens e entre mulheres. São aquelas pessoas com quem todo mundo quer ficar. Aquelas por quem um número desproporcional de seres humanos é apaixonado. Essas pessoas existem, estão em toda parte, circulam entre nós provocando suspiros e viradas de pescoço, mas não acho que sejam a resposta aos desejos de cada um de nós. Claro, todo mundo quer uma chance de ficar com uma pessoa dessas. Mas, quando acontece, não é exatamente aquilo que se imaginava. Você pode descobrir que a pessoa que todo mundo acha especial não é especial para você.

Da minha parte, tendo pensado um pouco, acho que a pessoa especial é aquele que enche a minha vida. Ela é a resposta às minhas ansiedades. Ela me dá aquilo que eu nem sei que eu preciso – às vezes é paz, outras vezes confusão. Eu tenho certeza que ela é linda por que não consigo deixar de olhá-la. Tenho certeza que é a pessoa mais sensual do mundo, uma vez que eu não consigo tirar as mãos dela. Certamente é brilhante, já que ela fala e eu babo. E, claro, a mulher mais engraçada do mundo, pois me faz rir o tempo inteiro. Tem também um senso de humor inteligentíssimo, visto que adora as minhas piadas. Com ela eu viajo, durmo, como, transo e até brigo bem. Ela extrai o melhor e o pior de mim, faz com que eu me sinta inteiro.

Deve ser isso que o meu amigo tinha em mente quando se referia a alguém especial. Se for isso vale a pena. As pessoas que passam na nossa vida são importantes, mas, de vez em quando, alguém tem de cavar um buraco bem fundo e ficar. Essas são especiais e não são fáceis de achar. 

(Ivan Martins escreve às quartas-feiras)

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Brilho eterno de uma mente sem lembranças

Para um leitor especial...

Malandro é o inglês que não sabe o significado da palavra saudade. Perdem o ônibus na mesma intensidade que sofrem por um amor perdido. Já escrevi sobre saudade e como as redes sociais mascaram um sentimento de perda. Mas uma coisa é a saudade de quem partiu, outra é perder alguém que se ama... pra outra pessoa.

E aí lá vem o Facebook mostrar mais um casal feliz que se intitula “para sempre”. E o novo consorte, que coitado nada tem a ver com as juras alheias de amor infinito que foram em vão, é instantaneamente odiado pelo ex e seus relativos.

E quem nunca esteve no papel acima que atire a primeira pedra... Eu, na minha primeira vivência, era o ser mais evoluído do mundo, que “rezava todas as noites desejando a felicidade dele”. Mas, mesmo mais de ano depois do término, vi uma foto de casal e instantaneamente um buraco se abriu na boca do estomago, causando um vácuo e uma certa sensação de não sentir mais os pés pisando no chão. A segunda, não foi bem um namoro, mas um excelente “prospect” que eu deliberadamente abri mão. Ve-lo com outra me trouxe de volta ao vácuo. Outras ocorreram, e certamente o oposto também ocorreu, mas alguém quer falar sobre ver o casal enquanto AINDA há um sentimento reprimido? Dói né? E não importa a idade.

Às vezes dá até vontade de nunca ter vivido aquele sentimento, nunca ter conhecido, nunca ter se envolvido. Dá vontade de bater a cabeça no canto certinho do cérebro onde todas as lembranças recentemente vividas são armazenadas. Mas quando passa – leia-se quando se conhece um novo amor que será maior que o anterior – tudo que fica são as boas lembranças, ou apenas lembranças.

E não adianta tentar reviver o mesmo, o novo de novo. O que passou passou, fomos felizes enquanto casal mas se acabou, algo não estava encaixando. Também não adianta dizer que está tudo bem. Cada dia é um dia, e cada história uma história. Um sentimento só vale a pena se for recíproco. Se for unilateral não é perda, é inveja. E a gente só tem a autorização divina de ter inveja daquilo que podemos ter, o que então denominamos exemplo, perseverança, meta, ambição.

A vida anda, e anda rápido. Quem ainda é jovem tem a sensação que a vida vai durar só mais dois anos e quer resolver tudo agora. Não é bem assim... a gente nem sabe onde está guardado o nosso. Uma cartomante (sim, uma cartomante, juro que faz tempo) me disse que o “meu” nem morava no Brasil. Mas ela também disse que eu receberia uma grana em novembro passado, que ainda não veio... Isso só exemplifica o que eu quero hoje: (me) provar que a gente não sabe de nada da vida. Não sabemos onde vai dar tudo isso, em que vai dar. Uma relação com uma pessoa sempre traz frutos, mas muitas vezes não são o que tínhamos em mente quando a conhecemos. Pode ser uma linda amizade, pode ser um futuro casamento, nosso ou de amigos em comum, pode ser uma parceria comercial. Pode ser uma inimizade ou... PODE NÃO SER NADA. Só lição de que na vida nem tudo é escrito a caneta...

E que não precisa de tanto para ser apagado ou esquecido, é só querer – e parar de fuçar no Facebook.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Para cada amigo, uma família

Eu não tive um amigo imaginário na infância. Meus primos, em sua grande maioria, são bem mais velhos, pelo fato de eu ser filha da caçula da família, que ainda teve filho bem mais velha. Não tenho nenhum amigo da época das fraldas e minha infância com meu irmão foi conturbada, isso até...

...Isso até os tempos de escola, quando numa inesquecível piada eu me liguei à uma dessas irmãs que a vida espalha por aí. Estudamos juntas por 3 anos apenas, até que ambas mudaram de escola. E de cidade, e até de país. Eu não tenho contato com mais ninguém desta escola, apenas com aquela que por tantas vezes me fez até fazer xixi nas calças de tanto rir, que brincamos de boneca, jogamos stop, andamos de patins, cozinhamos bolinhos de chuva sem nenhuma consistência, tomamos banho de esguicho, bexigas d’agua... dividimos tantas experiências quanto irmãs poderiam compartilhar. Tomei bronca dela, da mãe dela, da avó dela, da irmã dela... é, amigo é a família que a gente escolhe.

... Isso até os tempo de colégio, quando num boato mal intencionado, eu fiquei por meses sem olhar para a cara desta pequena que, os poucos, acabou se aproximando. Inteligente, sagaz e com um quê de querer ser maloqueira. Usava jeans e allstar, cabelo comprido e não fazia a sobrancelha. Acabou virando uma parceira de estudos, quando a única nota baixa de nossas vidas nos desafiou. Anos depois, namorados depois, ninguém a conhece como eu. Cada tom nas palavras, seu perfeccionismo que contrasta com a desatenção e desapego. Baladas, festas, jantares – e omissão de alimentos, caronas , salto alto e a conta de celular. Eu, durante um tempo, fui mais parceira da mãe dela do que dela... é, amigo é a família que a gente escolhe.

...Isso até os tempos de faculdade, quando as turmas eram tão bagunceiras e bagunçadas. Eu, que mal havia chegado, virei a mesa de uma turma fechada, apontei podres e, numa situação um tanto delicada (que hoje parece tão pequena) selecionei algumas que me acompanham até hoje, uma delas lá de longe, do outro lado do mundo (se é que o mundo tem lado), e uma outra virou parceira, equipe, companheira de cerveja perfeita... é, amigo é a família que a gente escolhe.

...Isso até os tempos de Londres, quando precisou estarmos milhas distantes para entendermos o quanto a gente se dava bem. Flatmate, bedmate, mate... uma amizade que uniu mais que duas brasileiras no exterior, virou irmandade mesmo, me defendeu com unhas e dentes literalmente, me deu colo, mesmo sem nunca ter passado a mão na minha cabeça pra nada – de todas, é a que mais dá bronca. É a que se exalta, mas sempre fala a verdade. E não veio só ela, o pacote incluía os amigos dela, a rua dela, a casa dela... é, amigo é a família que a gente escolhe.

...Isso até a vida dar uma reviravolta, quando eu precisei sofrer e me decepcionar com um e ganhar dois presentes da vida. Foram ofensas gratuitas, um ódio desnecessário, uma briga inexistente. E o perdão. A amizade que nasceu do acolhimento, a maturidade, o entendimento dos caminhos que a vida nos coloca. Entender que meu carma era na realidade conhecer a “inimiga” e ganhar uma amiga pra virar uma equipe, ou então uma companheira de viagem, de música verde e de freada brusca. A amizade excedeu os limites nacionais, e foram empanadas, Natais e Reveillon... é, amigo é a família que a gente escolhe.

...Isso até o ambiente de trabalho, o amigo do amigo, o chefe, o instrutor da academia, o vizinho... ah, estas histórias vão ficar para o ano que vem, assim dá tempo de a gente ter mais e mais história para contar!

Amigo. A família que a gente escolhe.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

O amor não tira férias

Quantas e quantas vezes não ouvimos as histórias de amores de verão. Quantos filmes, novelas, livros, quantos contos que desejamos nossos, quantos devaneios sobre paixões avassaladoras que nos acometem em questão de segundos, quando menos esperamos.

Tudo que precisavámos fazer era nos abrir à elas.

Tudo que precisávamos era esquecer.

As férias da minha vida. Assim que chamo o último mês vivido, título plagiado descaradamente porém vivenciado profundamente. Foram 30 dias de descanso, viagens, risadas e devaneios. Mãos no bolso, pés na estrada, na calçada, no metrô, no trem, no ônibus, em cima e sem salto. Mente lutando em ficar vazia, coração insistindo no desapego, e eu apenas vivendo toda esta luta de sentimentos, com os olhares cobertos por lentes escuras protegidos do escasso sol que a terra de céu cinzento permite raiar. O cinza combinava com a alma, combinava com as letras miúdas que insistia em acompanhar, como um livro virtual de cabeceira.

Três semanas depois, o sol surgiu, o verão chegou tarde no velho continente. Com o sol, ele veio, alto, de gargalo, difícil de entender, mas o olhar disse tudo, mesmo no idioma estrangeiro. Entre beijos e festas, uma conversa profunda sobre a vida selou o primeiro encontro, aquele que seria o último. Minhas asas, que mesmo vermelhas se confundiram com as de um anjo, não foram fortes o suficiente para me tirar do chão, e eu acabei voando para outra direção. Mas o sol me trouxe a lembrança e o cupido, aquele armado não com flechas, resolveu de novo agir: o sol se pôs e eu continuei a olhar o horizonte, com uma imagem ruiva na cabeça.

O último dia de viagem chegou, já saudoso, tenso, com tanto a fazer. Mas a escolha foi feita. Tudo para o ar, quis a companhia, o toque das mãos grandes, os elogios, as fotos, o abraço incrivelmente confortável. Justamente no último dia. Na última noite. Eu fui, com um beijo enquanto ele dormia, e parti.

E hoje são dois os oceanos que nos separam. Amanhã serão cinco. Um dia talvez, nenhum, ninguém sabe.

O que eu sei é eu me abri. E que o amor da vida real também não tira férias.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Agradeço a Santo Antônio pela graça alcançada!

Promessa é dívida. E quando se trata de Santo Antônio vira questão de honra.

Mesmo remota, não esqueci nem por um segundo que dia tão brasileiro era hoje. Até porque eu fiz uma promessa há uns tempos, dizendo que no momento propício eu contaria essa história.

Sim, a promessa não foi bem para o santo, foi à uma amiga carola, que ficou arrepiada ao saber o que o danado aprontou desta vez.

Há exatos 9 anos, ou seja, MUITO tempo atrás, uma amiga - hoje a parceira de cervejas - surgiu na faculdade com um saco de pão, o batizado pão de Santo Antônio, que traria sorte aos solteiros. Justa como sempre, trouxe aos amigos comprometidos um sonho de valsa. Eu, solteira convicta, ganhei o pão, e devorei-o, mas mais por fome que por qualquer crença e, ingênua, sugeri que a amiga oferecesse o pão à um rapaz que era colega de faculdade. Sem segundas intenções, posso jurar com o aval do santo. No dia seguinte, lá estava eu enamorada pelo tal rapaz, e assim foi durante os outros 5 anos, quando o segundo contato com o santo aconteceu.

Porque quem namora por 5 anos já não é "for fun", e eu vivia num meio termo que me incomodava todos os dias às 20h, quando deixava o trabalho. E a situação ficou cada vez mais complicada quando notei uma certa falta de sintonia quanto ao futuro do relacionamento. Foi quando um amiga querida se casou e passou pra mim uma tradição, que havia sido passada a ela tempos antes, quando ela terminara uma relação de 11 anos (ela se casou com o amor da vida, menos de 1 ano depois do término do namoro e hoje tem um sorriso de orelha a orelha) que já estava super desgastada. A orientação era: peça não um casamento, mas um destino, um encaminhamento. Coloque-o de ponta cabeça e todos os blablabás que sabemos, que contam com copos de água, fitas e amarras. Meio incrédula - ainda - o fiz. Mas do meu jeito.

Me senti desconfortável (e até ridícula) em colocar uma imagem imersa dentro de um copo por período inderteminado. Então "conversei" com o santo, e pedi assim o tal encaminhamento. Pedi que eu apenas fosse feliz, não exatamente naquele relacionamento, mas na vida, feliz comigo. Que eu estivesse com quem me fizesse realmente feliz e me fizesse bem. Que meu futuro no amor fosse próspero, seja ele num então casamento com aquele que namorava, seja em um novo grande amor. Eu apenas queria que tudo desse certo. Combinamos que ele ficaria ali, guardadinho, no fundo do armário, de pé e sem amarras, e qua a próxima vez que nos veríamos eu saberia que ele já havia mexido os pauzinhos dele e que tudo já estaria resolvido.

É claro que eu me imaginava casada no momento de reencontrar o Santo.

Mas, pelos pauzinhos e peripécias do destino, meu reencontro com o Santo foi ao arrumar minhas malas, de mudança - então por tempo indeterminado - para Londres, um ano depois. Eu estava solteira, livre, começando uma nova vida. Ainda, foi preciso mais tempo para entender o porquê de tudo. Este tempo foi o mais importante da vida, e me ensinou muito. Não desdenho do meu passado, cresci e aprendi demais com ele. Fui feliz e fui triste, como qualquer um em qualquer relacionamento.

O Santo continua bem guardado, sem amarras, sem pedidos, sem promessas. Porque eu sei que ele só vai "atuar" na minha vida amorosa quando realmente valer a pena. O santo sabe bem quem e o que eu quero, e eu sei que ele só vai me dar aquilo (e aquele) que realmente fizer por merecer, for para ser. Uma relação justa, eu diria.

Hoje, solteira, agradeço a Santo Antônio pela graça alcançada.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Frio na barriga

Me perguntaram pelo menos mil vezes: "você está com frio na barriga?". E a resposta invariavelmente era não, não estava. E não sei porque, parecia que não era real, não era comigo, não iria acontecer, porque algo na última hora me desviaria do caminho. Mas nada disso aconteceu, e eu cheguei.

Cheguei onde queria, do jeito que queria, mas o frio na barriga não veio. Foi perfeitamente normal, como se fizesse parte da minha vida, aliás, como se nunca tivesse saído da minha rotina. Eu sabia exatamente onde ir e o que fazer. Não houve confusão, não houve espera. Nem houve o grande reencontro de mim com meu passado. Foi tudo perfeitamente monótono.

Rótulos, canais, rostos e faces. Todos os mesmos. Mas mais bonitos.

Moedas, canais, tecnologias. Todas as mesmas. Mas mais acessíveis.

Idiomas, sotaques, vozes. Todos os mesmos. Mas (desta vez) compreensíveis.

Lembranças. Todas diferentes.

Um ar de nostalgia em cada passo, que tento esconder com um sorriso que prendo no canto da boca.

As mãos continuam no bolso. Os fones de ouvido continuam presentes, o vento bate forte nas pernas à mostra, insistentemente à mostra. Os óculos escuros mostram um novo momento, emolduram uma outra beleza que contempla a mesma paisagem.

Então, no momento perfeito, o frio na barriga veio e me deixou por cerca de 15 minutos paralisada na sacada do apartamento, contemplando esta paisagem. Perdida em pensamentos e expectativas me deixei levar pelo frio na barriga.

Será então minha rotina por estes 30 dias, acordar e visitar a sacada, para reviver o frio na barriga.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Delete

Um turbilhão de pensamentos na cabeça. O peito explodindo, mas não consigo expressar em palavras o que sinto. Não porque me as faltam, pelo contrário, SOBRAM. Falo demais, escrevo demais, esta é a lógica. Toda vez que começo um parágrafo, me sinto num divã e desabafo coisas que a internet não suporta. Este não é um diário que está debaixo da cama, infelizmente nem tudo pode ser escrito e publicado. Mas escrever ainda me alivia muito, portanto, nada substitui a tecla “delete” do meu companheiríssimo teclado. Ah se ele falasse tudo que traduz em seu magnifico código binário...

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Paul... here, there and everywhere!

O universo está sempre à nosso favor, não importa o que aconteça. “Obrigada Universo” foi a máxima de uma viagem que só veio para acrescentar, mesmo que a subtração de alguns itens e sentimentos tenha se feito presente.

Uma viagem feita de números, setas, bolos e sentimentos. Memórias, recordações e histórias. Se alguém me dissesse em meados de 2008 que 3 anos depois eu faria uma viagem simples porém memorável, que ficaria marcada pra vida com aquela garota de adjetivos intensos, que chegava com sua bolsa a tiracolo e seu humor peculiar de carolinas – assim mesmo, com letra minúscula – eu duvidaria. Até porque, naquele momento, Paul era outro. Era um que tinha uma ou outra música boa, mas tinha aquela música que eu não gostava. Era aquele que fez parte de uma fase intensa da minha vida, que formou grande parte do que meu coração é hoje, mas era apenas Paul.

A vida – sua caixinha de surpresas – se encarregou de tudo sozinha, eu fui só acompanhando o ritmo da trilha que ela fez pra mim. Começou com o fundo musical de uma guitarra e alguns acordes, entoando a música do meu nome. E me levou pra casa deles, daqueles quatro que me embalaram aqui, lá, em qualquer lugar, mostrando que nada mudaria meu mundo e que alguma coisa em mim era especial. E eu percebi que há muito mais tempo eles estavam lá, me dando aquela força para que eu pudesse superar qualquer coisa (meus amigos). Logo eu me vi embalada e seduzida, encantada...

Veio o filme, uma nova música especial só dele, que só me lembrava o Paul (aquela outra ele nem canta mais...), e com esta nova canção, um novo sentimento de amor – ou vício, ou apego. Mas essa Paul McCartney insistiu que ele não toca na turnê “Up and Coming”. Aliás, o nome dessa turnê casa com as coincidências que o destino (aquele que eu teimo em chamar de esotérico) gosta de me colocar.

Foram 3 dias de viagem. Rio de Janeiro com cabeça no colo, bolo itinerante, praia com frio, sotaque e uma sensação que eu sempre neguei. Foi no dia que Paul cantou para meu coração – ele disse “deixa estar” – eu tive a resposta que eu precisava, há tanto tempo. Uma resposta que me deixou feliz e me libertou, uma canção simples que ao som do coro de 45mil pessoas, se fez mais que ouvida; sentida. Foi quando Paul disse tchau e eu, novamente, disse oi para ele, eu vi que nunca é o fim. Foi quando eu vi que toda musica que Paul canta é para mim – ou ele interpreta muito bem. E quem é que resiste ao charme de seus suspensórios e seus traços incontestáveis de um eterno Beatle?

Foram 3 dias ainda de uma relação de amor com o Rio de Janeiro. Me sentia carioca, uma exemplar garota de Ipanema, meus olhos brilhavam a cada passo que dava naquele lado da cidade maravilhosa. Uma relação de amor unilateral: foi quando duvidaram do meu bolo que eu vi que o Rio é o Rio. E que eu sou eternamente paulista, com meu "s" e "r" bem do meu jeito - que pode mudar, só se eu quiser...

Fica Paul, vai ter bolo!

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Get Back

De novo, ansiosa.

Aliás, sempre ansiosa, mas sempre de maneira sutil. Desta vez não, a ansiedade é dupla, tripla.

Um show apenas, nada demais. Um show já visto antes, na mesma turnê, mas que por motivos de excesso de adrenalina - e dela,  de ocitocina - eu não consigo lembrar de detalhes. Eu estava tão eufórica que só lembro do macro. Lembro das lágrimas, lembro do coração se aquecendo, lembro da chuva, dos vídeos gravados e da sensação de que aquilo era um pedaço da minha banda favorita, aquela que toca todas as músicas que eu preciso pra montar a minha trilha sonora.

Mas dessa vez não haverá vídeo, não haverá chuva também, São Pedro prometeu. Dessa vez a companhia é inédita, é de matar a saudade de muitas coisas, e de descobrir momentos novos.

O novo. Eu preciso do novo, e não do de novo. Ansiosa pra saber quando me abrirei ao novo e abandonarei a mesmice e a falta do de novo.

De novo, Paul.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Cartas na mesa

Eu cismei que queria aprender pôquer. E numa viagem, que por definição quanto mais pessoas numa mesma viagem, maior a probabilidade de chuva, aprendi todas as regras.
Mas nunca soube jogar.
Sei as regras, mas descobri que só isso não basta. Tem que saber blefar. Saber apostar. Saber arriscar.
Mas alguém sabe perder? Sabe me ensinar a perder? Porque se eu não souber como vai ser quando perder, como terei coragem de arriscar? Como colocarei todas as cartas na mesa se eu não souber o que acontece quando eu tiver que deixar a mesa?
Como eu vou me sentir? Me olharão? Sentirão pena, desprezo ou é tudo mesmo só um jogo, e em breve eu estarei sobre o veludo verde novamente?
Acho que é por isso que eu tenho tanto medo de arriscar e jogar. Medo de não saber viver nas regras do pôquer. Medo pela quantidade de interrogações que eu coloco antes mesmo de as cartas serem distribuídas.

E pelo simples medo de perder com as cartas boas que tenho em mãos, me calo com um par de ases.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Ocitocina, sua linda!

Pra matar a saudade de me sentir assim, vívida, feliz. Com aquele aperto no peito inexplicável, suspiros insensatos, um rosto que persiste no pensamento, não importa onde ele esteja. Um rosto no inconsciente, o sonhar, o divagar... de quantos filhos, onde morar, que cor pintar o quarto, que carro teremos para carregar toda a família para a casa no interior no fim-de-semana, colher frutos no pé-de-amora. A cor favorita, a letra de mão, a cor dos olhos, dos cabelos, as pintas pelo corpo, medir mãos, tocar a ponta do nariz, afagar os cabelos, auto-retratos...

Ah o corpo humano e sua sabedoria infinita de até mesmo saber nos fazer apaixonar, como, onde e por quem.

Porque é ela que faz tudo isso acontecer. É a ocitocina que decide, por cálculos e recálculos inconscientes, que é com este ou aquele macho-alfa que a mulher quer procriar. Por isso, o corpo libera uma dose de paixão no cérebro. Dose essa que é revigorada, por manutenção, a cada vez que cada um desses momentos volta à lembrança. Portanto, para o corpo humano, lembrar é amar.

Amor este quase que exclusivo das mulheres. Porque a ocitocina foi feita para criar o laço materno, no amamentar, no parir, no conceber. Sim, é a dose cavalar de ocitocina liberada no orgasmo que faz o útero se empenhar para o conceber. Por isso, entre erros e acertos, podemos dizer até que não existe sexo casual para a mulher: a cada orgasmo, uma dose de paixão/ocitocina é liberada. Se olhar nos olhos de uma mulher durante um orgasmo, irá ver o amor florescer em seu corpo, a cada vibração, a cada arrepio e toque. E é pela ocitocina também que mulheres amam chocolate sobre todas as coisas. Chocolates e feromônios, todos no mesmo patamar.

É.. o corpo e suas peripécias para o amor.

Nada como uma nova dose de ocitocina para girar a roda da vida.